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Engenharia diagnóstica e acessibilidade: aprendizados de um projeto de extensão

Como pesquisa, normas técnicas e 72 respostas se transformaram em uma experiência de conscientização sobre segurança, autonomia e inclusão no SENAI Nova Lima.

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Introdução

Uma rampa pode existir e ainda não ser segura. Um piso tátil pode estar instalado e, mesmo assim, ser interrompido por obstáculos. Um corrimão pode parecer adequado à primeira vista, mas estar solto, deteriorado ou mal posicionado.

Foi a partir dessa diferença — entre simplesmente existir e realmente funcionar — que desenvolvemos o projeto de extensão Engenharia Diagnóstica e Acessibilidade, no curso de Engenharia Civil da Universidade FUMEC. O objetivo foi aproximar o conhecimento técnico da realidade cotidiana e mostrar como inspeção, diagnóstico e manutenção preventiva contribuem para ambientes mais seguros, acessíveis e inclusivos.

O trabalho reuniu pesquisa bibliográfica, estudo de normas técnicas, observação de pontos de acessibilidade, produção de material educativo, aplicação de questionário e uma ação de conscientização no SENAI Nova Lima. Para mim, foi também uma oportunidade de perceber, ainda nos primeiros períodos da graduação, que a engenharia começa antes do cálculo de uma solução: ela começa pela capacidade de observar, interpretar e comunicar um problema com responsabilidade.

Engenharia diagnóstica além dos reparos

A engenharia diagnóstica investiga o estado de uma edificação ou de seus sistemas para identificar manifestações patológicas, compreender possíveis causas e orientar medidas corretivas ou preventivas. Em termos práticos, ela ajuda a responder quatro perguntas:

  1. O que está acontecendo?
  2. Por que o problema pode ter surgido?
  3. Qual é o risco associado a ele?
  4. Que tipo de ação técnica deve ser considerada?

No projeto, organizamos essa lógica em quatro eixos: inspeção técnica, identificação de patologias, análise das causas e orientação técnica. Esse percurso evita olhar apenas para o sinal visível. Uma fissura, um desnível ou um corrimão instável não são somente imperfeições estéticas; podem indicar falhas de projeto, execução, uso ou manutenção e afetar diretamente a segurança de quem utiliza o espaço.

Identificar falhas, compreender causas e orientar soluções: esse foi o princípio que conduziu o projeto.

Por que colocar a acessibilidade no centro?

A acessibilidade não se resume à presença de uma rampa ou de uma placa. Ela depende do funcionamento integrado de rotas, pisos, inclinações, corrimãos, escadas, sinalização e áreas de circulação.

Por isso, nosso olhar abrangeu tanto manifestações construtivas — como fissuras, desgaste, infiltrações e desníveis — quanto falhas de instalação, sinalização e manutenção. Entre os exemplos estudados estavam:

  • rampas com inclinação inadequada, fissuras ou desníveis;
  • pisos quebrados, irregulares ou escorregadios;
  • piso tátil ausente, danificado, descontínuo ou obstruído;
  • corrimãos soltos, deteriorados, ausentes ou instalados de forma inadequada;
  • degraus sem sinalização;
  • obstáculos em rotas que deveriam permanecer livres.

Essas situações podem reduzir a autonomia e aumentar o risco de acidentes, especialmente para pessoas com deficiência, pessoas idosas, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida. Acessibilidade não é um detalhe posterior da obra: é uma condição de segurança, dignidade e uso adequado do espaço.

Da pesquisa à ação

Adotamos uma abordagem de pesquisa-ação, combinando estudo técnico e atividade educativa. O processo foi organizado em sete etapas:

  1. pesquisa bibliográfica sobre engenharia diagnóstica, patologias e acessibilidade;
  2. estudo das ABNT NBR 9050, NBR 16747 e NBR 15575;
  3. observação e registro fotográfico de mais de oito pontos de acessibilidade;
  4. classificação dos problemas conforme o tipo, a urgência e o impacto no uso;
  5. criação de folder, apresentação e recursos digitais em linguagem acessível;
  6. aplicação de questionário eletrônico;
  7. apresentação dos resultados à comunidade escolar.

As normas ofereceram a base para transformar observações em critérios. A ABNT NBR 9050 orientou a leitura dos elementos de acessibilidade; a NBR 16747 contribuiu com princípios de inspeção predial; e a NBR 15575 ampliou a discussão sobre desempenho das edificações.

8+ pontos de acessibilidade analisados
3 normas técnicas de referência
2026 ano de realização do projeto

Escopo educativo: não realizamos um laudo profissional nem uma certificação de conformidade. A proposta foi exercitar a leitura técnica do ambiente construído e traduzir esse conhecimento para a comunidade escolar.

Mais do que reunir referências, precisávamos transformar conteúdo técnico em comunicação. O folder sintetizou os conceitos e os benefícios da identificação precoce. A apresentação organizou o raciocínio visualmente, enquanto o site do projeto ampliou o acesso ao conteúdo com explicações, metodologia, checklist, galeria e referências.

O encontro com os alunos do SENAI Nova Lima

O projeto foi concluído em 28 de maio de 2026, com a realização do Seminário dos Resultados no SENAI Nova Lima. A equipe foi formada por Bernardo Lopes, Emily Suelen, Guilherme Menezes, Gustavo Fanuchi e Luis Fernando, sob orientação da professora Sônia de Oliveira Barbosa Andrade.

Durante a apresentação, explicamos como reconhecer falhas em rampas, pisos, corrimãos, escadas e sinalização; discutimos possíveis causas; e mostramos por que inspeções e manutenções periódicas são importantes. A intenção não era formar especialistas em uma única conversa, mas oferecer referências para que problemas frequentemente naturalizados passassem a ser percebidos como questões de segurança e inclusão.

A experiência também exigiu uma competência essencial para qualquer engenheiro: adaptar a linguagem ao público sem perder a precisão. Relacionar conceitos a situações visíveis no dia a dia transformou um trabalho acadêmico em uma experiência real de comunicação.

Equipe apresenta o projeto de engenharia diagnóstica para alunos do SENAI Nova Lima
Seminário dos Resultados realizado no SENAI Nova Lima em 28 de maio de 2026.
Guilherme Menezes explica os eixos da engenharia diagnóstica durante a apresentação
Apresentação dos quatro eixos: inspeção, diagnóstico, análise das causas e orientação técnica.
Integrantes da equipe apresentam um slide sobre ambientes mais seguros
Conscientização sobre prevenção, segurança, inclusão e educação.
Guilherme e integrantes da equipe diante do painel do SENAI Nova Lima
Registro da equipe após a ação de extensão no SENAI Nova Lima.

O que 72 respostas revelaram

O questionário eletrônico reuniu 72 respostas. Do público participante, 81,9% cursavam o ensino técnico, 9,7% o ensino superior e 8,4% estavam em outras modalidades.

87,5% viram corrimão solto ou mal instalado
83,3% viram piso tátil danificado ou ausente
80,6% viram rampas muito inclinadas
Problemas já observados pelos participantes em locais que deveriam ser acessíveis
Problema observado Respostas Percentual
Corrimão solto ou mal instalado6387,5%
Piso tátil danificado ou ausente6083,3%
Rampa muito inclinada5880,6%
Piso quebrado ou irregular1825,0%
Obstáculos no caminho1520,8%
Degraus sem sinalização1216,7%
Falta de corrimão1115,3%
Nunca observou problemas11,4%

Como a questão permitia selecionar mais de uma alternativa, os percentuais não devem ser somados. Eles mostram a recorrência com que cada tipo de falha foi reconhecido.

Outro resultado chamou atenção: 97,2% responderam que esses problemas podem causar acidentes. O mesmo percentual reconheceu que a falta de manutenção pode prejudicar pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida — 70,8% disseram que prejudica “um pouco” e 26,4%, “muito”.

A análise revelou ainda um contraste importante: muitos participantes reconheciam as falhas no cotidiano, mas o termo engenharia diagnóstica ainda era pouco conhecido em profundidade. Isso reforçou a utilidade da ação educativa.

Atividade realizada não é o mesmo que impacto comprovado

Uma das lições mais importantes da análise de projetos de extensão foi separar o que fizemos daquilo que conseguimos evidenciar como resultado.

As atividades foram a pesquisa, os registros, o questionário, a produção do folder, do site e da apresentação. Os resultados imediatos foram as 72 respostas coletadas, o mapeamento das falhas mais reconhecidas e a produção de recursos que tornaram o assunto mais compreensível.

Os dados indicam forte reconhecimento dos riscos associados à falta de manutenção e às falhas de acessibilidade. Entretanto, eles não comprovam, sozinhos, uma mudança de comportamento a longo prazo nem a correção física dos problemas. Para avaliar esses impactos, seriam necessários acompanhamento posterior, comparação antes e depois da ação e diálogo com os responsáveis pela manutenção dos espaços.

O que essa experiência acrescentou à minha formação

O projeto aproximou conceitos da Engenharia Civil de problemas que muitas vezes são vistos, mas não analisados. Entre os principais aprendizados que levo estão:

  • Observar antes de propor: uma solução adequada depende de reconhecer corretamente o problema, seu contexto e suas possíveis causas.
  • Comunicar também é fazer engenharia: normas e critérios técnicos precisam ser traduzidos com clareza para diferentes públicos.
  • Trabalhar com dados exige cuidado: números ajudam a sustentar conclusões, mas precisam ser interpretados dentro dos limites do método.
  • A manutenção faz parte da acessibilidade: não basta projetar corretamente; é necessário conservar os elementos.
  • Engenharia tem responsabilidade social: decisões sobre o ambiente construído afetam autonomia, segurança e participação.

Também aprendi sobre colaboração. Cada etapa — pesquisar, organizar dados, criar materiais, construir o site e apresentar — dependia da integração entre os membros da equipe. O resultado não foi apenas um produto acadêmico, mas um exercício de responsabilidade compartilhada.

Próximos caminhos

O projeto pode continuar com questionários antes e depois das ações educativas, ampliação da diversidade do público, criação de checklists simplificados para comunidades escolares e acompanhamento dos encaminhamentos de manutenção.

O site permanece como registro público e material de consulta. Nele, qualquer pessoa pode conhecer a metodologia, explorar os principais tipos de falha e acessar uma mensagem que resume o propósito de todo o trabalho:

Um espaço acessível é um espaço para todos.

Mais do que corrigir problemas depois que eles aparecem, a engenharia diagnóstica ajuda a prevenir riscos. Quando aplicada à acessibilidade, ela reforça algo essencial: construir e manter espaços seguros é uma forma concreta de promover inclusão.

Créditos do projeto
Equipe
Bernardo Lopes, Emily Suelen, Guilherme Menezes, Gustavo Fanuchi e Luis Fernando
Orientação
Prof.ª Sônia de Oliveira Barbosa Andrade
Instituições
Universidade FUMEC e SENAI Nova Lima
Componente
Formação de Extensão — Dimensão da Comunicação e Expressão
Data da ação
28 de maio de 2026

Referências técnicas

  • ABNT NBR 9050: Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Rio de Janeiro: ABNT, 2020.
  • ABNT NBR 15575: Edificações habitacionais — Desempenho. Rio de Janeiro: ABNT, 2013.
  • ABNT NBR 16747: Inspeção predial — Diretrizes, conceitos, terminologia e procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2020.
  • HELENE, Paulo R. L. Manual para reparo, reforço e proteção de estruturas de concreto. 2. ed. São Paulo: Pini, 1992.
  • THOMAZ, Ercio. Trincas em edifícios: causas, prevenção e recuperação. São Paulo: Pini; IPT; EPUSP, 1989.
  • TRIPP, David. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa, v. 31, n. 3, 2005.

Perguntas frequentes

O que é engenharia diagnóstica?

É a área que investiga as condições de edificações e sistemas construtivos para identificar falhas, manifestações patológicas, possíveis causas e medidas corretivas ou preventivas.

Quais elementos de acessibilidade foram estudados?

O projeto abordou rampas, pisos, piso tátil, corrimãos, escadas, sinalização e rotas de circulação, considerando problemas construtivos, de instalação e de manutenção.

Qual foi o principal resultado do questionário?

Entre as 72 respostas, os problemas mais reconhecidos foram corrimãos soltos ou mal instalados, pisos táteis danificados ou ausentes e rampas muito inclinadas. Além disso, 97,2% reconheceram o risco de acidentes.

O projeto realizou uma inspeção profissional?

Não. A atividade teve finalidade acadêmica e educativa. Não substitui inspeção, laudo ou avaliação formal realizada por profissional legalmente habilitado.

Conheça também o site completo do projeto ou volte à página de artigos para acompanhar as próximas publicações.